Polifenóis, Hormesis e Doenças: Parte II

Polifenóis, Hormesis e Doenças: Parte IINo último artigo, expliquei que o corpo trata os polifenóis como agentes químicos estranhos potencialmente nocivos, ou “xenobióticos”.

Como conciliar isso com a crescente evidência de que pelo menos um subconjunto de polifenóis tem benefícios para a saúde?

Pistas da radiação ionizante

Uma das coisas mais curiosas que tem sido relatado na literatura científica é que, embora doses elevadas de radiação ionizante (como raios-X) sejam claramente prejudiciais, conduzindo ao cancro, envelhecimento precoce e outros problemas, sob algumas condições, a radiação ionizante de baixo nível, pode na verdade, diminuir o risco de cancro e aumentar a resistência a outros stressores (1, 2, 3, 4, 5).

Fá-lo, desencadeando uma resposta celular protectora, aumentando as defesas celulares em resposta à ameaça menor infligida pela própria radiação. A capacidade dos stressores leves de aumentarem a resistência ao stress é designada por “hormese.” O exercício é um exemplo comum. Já escrevi sobre esse fenómeno no passado (6).

O Caso do Resveratrol

O resveratrol é talvez o mais conhecido dos polifenóis, disponível em lojas especializadas em suplementos de todo o país. É visto como um suplemento da moda, sendo descrito como um “mimético da restrição calórica”, e a explicação para o “paradoxo francês”. * Mas existe um grande conjunto de evidências que sugerem que o resveratrol funciona da mesma forma que doses baixas de radiação ionizante e outros polifenóis bioactivos: agindo como uma toxina leve que desencadeia uma resposta hormética (7).

Assim como no caso da radiação, doses elevadas de resveratrol são prejudiciais ao invés de benéficas. Isto tem implicações óbvias para a suplementação com resveratrol e outros polifenóis. Um recente artigo de revisão sobre os polifenóis declarou que, embora os polifenóis possam ser protectores “, doses elevadas de alimentos fortificados ou suplementos alimentares são de eficácia não comprovada e possivelmente prejudiciais” (8).

A resposta celular aos oxidantes

Embora possa não parecer óbvio, a radiação e os polifenóis activam uma resposta celular que é semelhante em muitos aspectos. Ambos activam o factor de transcrição Nrf2, que activa os genes que estão envolvidos na desintoxicação de substâncias químicas e de defesa antioxidante ** (9, 10, 11, 12). Pensa-se que isso de deve ao facto de que os polifenóis, assim como a radiação, podem aumentar de forma temporária o nível de stress oxidativo no interior das células. Aqui está uma citação do artigo de revisão de polifenóis acima citado (13):

Descobrimos que os [polifenóis] são potencialmente muito mais do que “apenas antioxidantes”, mas que provavelmente desempenham um papel insignificante como antioxidantes “convencionais”.

Eles aparentam, na maioria das circunstâncias, serem justamente o oposto, isto é, pró-oxidantes que, no entanto, parecem contribuir fortemente para a protecção contra o stress oxidativo, induzindo mecanismo enzimáticos endógenos de protecção celular.

Eles parecem ser capazes de regular não apenas a transcrição de genes antioxidantes, mas também vários aspectos das cascatas de sinalização intracelular envolvidas na regulação do crescimento celular, inflamação e muitos outros processos.

É importante notar que isto é essencialmente o oposto do que irá ouvir na televisão ou revistas comuns, que os polifenóis são antioxidantes directos. Os conhecimentos científicos mais recentes já descartaram completamente essa hipótese, mas a maioria da população ainda não se actualizou.

A Nrf2 é um dos principais caminhos pelos quais os polifenóis aumentam a resistência ao stress e aumenta as defesas antioxidantes, incluindo o antioxidante celular chave glutationa (14). A actividade da Nrf2 está correlacionada com a longevidade entre as espécies (15).

Induzir a actividade da Nrf2 via polifenóis ou por outros meios, reduz substancialmente o risco derivados de um mau estilo de vida em modelos animais, incluindo doenças cardiovasculares, diabetes e cancro (16, 17, 18), embora a Nrf2 não seja necessariamente o único mecanismo. As provas em humanas são coerentes com os estudos realizados em animais, embora tenham sido tão bem desenvolvidos.

Um dos efeitos mais interessantes de hormese é que a exposição a um stressor pode aumentar a resistência a outros factores stressantes. Por exemplo, o consumo a longo prazo de chocolate rico em polifenóis aumenta a resistência às queimaduras em seres humanos, implicando que induz uma resposta hormética na pele (19). Os alimentos ricos em polifenóis, como o chá verde reduzem as queimaduras solares e o desenvolvimento de cancro de pele em animais (20, 21).

Foi Chris Masterjohn que primeiro me introduziu ao Nrf2 e à ideia de que os polifenóis agem através da hormese. Chris estuda os efeitos do chá verde sobre a saúde, que parece ser mediada pelos polifenóis.

Um segundo mecanismo

Existe um lugar no corpo onde os polifenóis estão suficientemente concentrados para serem antioxidantes directos: no tubo digestivo, após a ingestão de alimentos ricos em polifenóis. A digestão é um processo químico agreste que oxida facilmente certas substâncias ingeridas, como as gorduras polinsaturadas (22).

A gordura oxidada não é saudável quando se forma na frigideira, nem quando se forma no trato digestivo (23, 24). Ingerir alimentos ricos em polifenóis impede de forma eficiente que essas gorduras sejam oxidadas durante a digestão (25). Uma consequência disto parece ser uma melhor absorção e assimilação dos excepcionalmente frágeis omega-3 ácidos gordos polinsaturados (26).

O que significa tudo isto?

Parece-me que, em geral, as evidências sugerem que em moderação, os alimentos ricos em polifenóis são saudáveis ​​, e ingeri-los numa base regular é geralmente uma boa ideia. Certos outros químicos das plantas, tais como a suforaphane encontrada em vegetais crucíferos, e a alicina encontrada no alho, apresentam efeitos semelhantes e também pode actuar pela hormese (27).

Alguns dos alimentos ricos em polifenóis mais estudados são: o chá (particularmente o chá verde), mirtilos, azeite extra-virgem, vinho tinto, frutas cítricas, chá de hibisco, soja, chocolate amargo, café, açafrão e outras ervas e especiarias, e um número de ervas medicinais tradicionais. Uma boa regra de ouro é, “comer o arco-íris”, escolha alimentos com uma variedade de cores.

A suplementação com polifenóis e outros produtos químicos de plantas em quantidades que não seriam viáveis através da ingestão de alimentos, não é provavelmente uma boa ideia.

* O “paradoxo”, em que os franceses seguem uma dieta rica em gordura saturada, no entanto, têm um baixo risco de ataque cardíaco, em comparação a outras nações ricas do ocidente.

** Os genes que contém um elemento de resposta antioxidante (ARE) na região promotora. ARE por vezes também é designado por elemento de resposta electrófilo (EpRE).

Autor: Stephan Gueynet

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